9.19.2014

A dieta dos anfípodos

A marca registrada dos anfípodos é sua abundância, principalmente em ecossistemas marinhos. Essas pequenas criaturas  podem ser encontradas vivendo em sedimentos e associados a uma grande gama de organismos tais como algas, corais, esponjas e ascídias. Vivendo em tão grande número e numa enorme gama de ambientes é sinal de que comida não falta para alimentar a tropa desses pequenos notáveis. Afinal, do que se alimentam os anfípodos?

Um anfípodo entre hidrozoários. Foto: Ronald L. Shimek (retirado de: http://reefkeeping.com/issues/2004-09/rs/index.php)
Mandíbulas reveladoras
Um estudo realizado com quase 150 espécies de anfípodos revelou que o molar localizado nas mandíbulas dos anfípodos pode nos dizer muito sobre o hábito alimentar desses animais. Geralmente, organismos que se alimentam de detritos apresentam um molar mais desenvolvido do que os anfípodos carnívoros, por exemplo.

Cada família apresenta um hábito alimentar diferente?
Por conta de várias pesquisas anteriores, os pesquisadores desses organismos costumavam generalizar certos hábitos alimentares para certas famílias. A família Ampithoidae, que é bastante comum em algas, era tida como um grupo de anfípodos herbívoros, assim como a Família Amphilochidae. Já a Família Lysianassidae era considerada carnívora, tenho como principal presa os poliquetos. A família Phoxocephalidae, comum em sedimentos marinhos, era considerada onívora (se alimentava de detritos e pequenos animais viventes em sedimentos). 

No entanto, o estudo revelou que 95% dos anfípodos estudados eram também detritívoros. As famílias Ampithoidae e Amphilochidae, por exemplo, além de se alimentarem de algas, usam as partículas nutritivas do meio como fonte de alimentos. Já a família Phoxocephalidae considerada essencialmente detritívora, na verdade constitui um grupo dos maiores predadores da ordem!
Em um panorama geral, a maior fonte de alimento dos anfípodos são os detritos, independente do seu hábito de vida.

Lista de famílias analisadas quanto ao hábito alimentar. Em preto: hábito detritívoro. Em branco: hábito carnívoro. Listrado: hábito herbívoro. Os desenhos à direita revelam a morfologia das mandíbulas de cada família (Retirado de Guerra-García, et al., 2014).

Uma questão de intestino
Você sabia que existem anfípodos que conseguem passar até 18 meses sem se alimentar? Em um estudo feito com anfípodos da Antártida revelou que certas espécies possuem uma capacidade absurda de armazenar alimento. Essa capacidade está relacionada como o tamanho de seus intestinos. Anfípodos com intestinos maiores, apresentam maior capacidade de passar mais tempo sem se alimentar. Acredita-se que esta seja uma adaptação a condições extremas de falta de alimento.

Detritos de cada dia
Confira abaixo um anfípodo da Família Caprellidae se alimentando de detritos. (Vídeo elaborado pelo Dr. Álvaro Migotto).




Para saber mais:
Buschmann, A. H. (1990). Intertidal macroalgae as refuge and food for Amphipoda in central Chile. Aquatic Botany36(3), 237-245.Coleman, C. O. (1991). Comparative fore-gut morphology of Antarctic Amphipoda (Crustacea) adapted to different food sources. Hydrobiologia,223(1), 1-9.
Guerra-García, J. M., Tierno de Figueroa, J. M., Navarro-Barranco, C., Ros, M., Sánchez-Moyano, J. E., & Moreira, J. (2014). Dietary analysis of the marine Amphipoda (Crustacea: Peracarida) from the Iberian Peninsula. Journal of Sea Research85, 508-517.




2.01.2014

Crustáceo camaleão


A cor dos animais é algo que sempre encanta todo mundo! A coloração de araras, tucanos, pavões sempre chamou muito a atenção. Os animais que mais impressionam a maioria das pessoas são aqueles que conseguem se camuflar! Polvos e camaleões sempre vêm à cabeça quando o assunto é mudança de cor. O primeiro animal que me chamou a atenção, quando era criança, foi o camaleão. Não que eu o tenha visto, mas por causa de um livro da Ruth Rocha intitulado “Bom dia todas as cores” (Fig. 1). Nele, o camaleão mudava sua cor de acordo com seu humor ou ainda, de acordo com a opinião de seus amigos.

Figura 1. Capa do livro Bom dia todas as cores. 

  
Outro animal que sempre chama a atenção é o polvo. Quem não se encanta com vídeos de polvos alterando sua cor de acordo com o fundo do oceano?



Mas o que os crustáceos têm a ver com o assunto coloração?
Quem trabalha com esses animais já deve ter notado que existem crustáceos de diferentes cores. Quem já não viu, em suas coletas, caprelídeos marrons ou vermelhos (Fig. 2)? Anfípodes pardos ou rosados? E caranguejos? Tem até azul! Camarões também apresentam diferentes cores por aí...



Figura 2. Exemplares de caprelídeos de diferentes cores.


Mas por que apresentam tantas cores? Será a alimentação ou genética? Será que esses animais – nem que seja apenas alguns – podem mudar de cor?


Em estudo realizado em 2011, Lacerda & Masunari observaram a mudança de coloração em Caprella dilatata de acordo com o substrato disponível, no caso, algas vermelhas e pardas. Essa mudança na coloração durou cerca de 5 horas enquanto que Duarte (2011), em experimento em camarões do gênero Hypollite, observou a mudança de coloração em um período de cinco dias. Essa alteração na cor dos animais pode ser um processo de camuflagem, evitando, dessa forma, a detecção do animal por seu predador. Bauer (1981), em experimento semelhante para mudança de coloração em carídeos, não obteve resultados positivos, concluindo que o polimorfismo de cor determinado por cromatóforos – Yes! Nós temos cromatóforos! - pode variar grandemente entre grupos de Crustacea, podendo, em alguns grupos, essa determinação da cor ser de origem genética. Em anfípodes gamarídeos do Apherusa glacialis, encontrados na região do Ártico, o animal tem sua cor alterada pela incidência de raios UV, chegando a uma cor negra (Furhmann et al., 2011).


A mudança na coloração desses animais - embora os estudos comprovem em alguns, apenas - deve-se à presença de cromatóforos. Sim, alguns crustáceos apresentam cromatóforos, assim como os polvos! Não é demais?

 E agora, será que só polvos e camaleões vão nos encantar com suas mudanças de cor?


Referências:

Bauer, R. 1981. Color patterns of the shrimps Heptacarpus pictus and H. paludicola (Caridea: Hippolytidae). Marine Biology, v. 64, p. 141-152.

Duarte, R. 2011. Seleção de habitat e natureza polimórfica em populações do camarão Hippolyte. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo.
Fuhrmann, M.M.; Nygard, H.; Krapp, R.H.; Berge, J.; Werner, I. 2011. The adaptative significance of chromatophores in the Arctic under-ice amphipod Apherusa glacialis. Polar Biology, 34 (6): 823-832.
Lacerda, M. B. & Masunari, S. 2011. Substrate selection of the caprellid Caprella dilatata (Crustacea, Amphipoda). Revista de Biologia Marinha e Oceanografia, 46 (2): 207-218.

Capa do livro: http://saraalvesilva.blogspot.com.br/2013/02/livro-bom-dia-todas-as-cores.html
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=1c3Rg4SjtRo, acessado em 01.02.2014.
Fotos: Caprella 1: http://calphotos.berkeley.edu/cgi/img_query?enlarge=0000+0000+0505+0480
Caprella 2: http://en.wikipedia.org/wiki/Caprella
Caprella 3: http://invertebratezoology2.webs.com/orderamphipoda.htm


8.20.2013

Estrelas de cinema

Quem já conferiu no cinema o filme Círculo de fogo não pôde deixar de notar a presença de criaturas bem semelhantes às retratadas neste blog. Círculo de Fogo (nome original Pacific Rim), retrata a história de criaturas gigantescas, ditas Kaijus, que surgem de uma fenda no meio do Oceano Pacífico para destruir a humanidade. Cada criatura que sai da fenda, apresenta uma forma distinta, geralmente inspirada em um organismo marinho.

Filme Círculo de Fogo: Fonte; Warner Bros, 2013

O filme é uma ficção, mas sabemos que para o Oceano Pacífico são conhecidos uns dos mais exuberantes invertebrados marinhos, sobretudo crustáceos. Alicella gigantea, o anfípodo gigante que já foi postagem desse blog, foi encontrado nas profundezas do Pacífico. Além de acertarem no Oceano, os criadores do filme pensaram nos mínimos detalhes: os Kaijus tinham parasitas, assim como os grandes vertebrados marinhos que conhecemos hoje.

Parasita de Kaiju, vista frontal. Fonte: Monster Legacy, 2013

Parasita de Kaiju, vista lateral. Fonte: Monster Legacy, 2013

De cara podemos imaginar que esse seja inspirado em um daqueles isópodes parasitas. Mas se fosse para apostar, eu apostaria que esse parasita tenha sido inspirado nos isópodes da família Cymothoidae, a mesma da espécie Cymothoa exigua que ficou famosa nas redes sociais por parasitar peixes e se alojar em suas línguas.


Cymothoa exigua. Fonte: Wikipedia, 2013.

Cymothoa exigua. Fonte: Flickr - Steve & Alison1.
O parasita de Kaiju possui todos os apêndices preênseis, ou seja, encurvados, os quais são típicos da família Cymothoidae. Além disso, essa família é conhecida por apresentar indivíduos ectoparasitas de uma grande gama de vertebrados marinhos e de água doce. É marcada também por apresentar indivíduos protândricos, ou seja, os juvenis nascem machos e depois de transformam em fêmeas. 

Confira o vídeo abaixo sobre o Parasita de Kaiju



Além do parasita, um outro crustáceo ganha cena em Círculo de Fogo:

Onibaba, o kaiju caranguejo.

Onibaba, o Kaiju caranguejo. Fonte: Fruiz, 2013.
Esse Kaiju é um dos montros que surgem da fenda durante o filme, suas quelas enormes e suas patas articuladas surgindo de uma carapaça, não nega que sua inspiração não tenha vindo de um caranguejo. Analisando de perto, esse monstro tem a carapaça em um formato triangular, com a base na região posterior do animal. A parte anterior é partida em dois grandes espinhos. 

Ao meu ver, parece ser um caranguejo da família Majidae, mas deixo o espaço livre para os colegas especialistas em decápodos deixarem sua opinião.

Caranguejo da Família Majidae, Schyzophrys aspera. Fonte: Neville Coleman. 

Referências Bibliográficas:

Brusca, R. C. (1981). A monograph on the Isopoda Cymothoidae (Crustacea) of the eastern Pacific. Zoological Journal of the Linnean Society73(2), 117-199.

Brusca, R. C., Coelho, V., & Taiti, S. (2001). A guide to the coastal isopods of California. Electronic publication: http://tolweb. org/notes.

Melo, G. A. S. (1996). Manual de Identificação dos Brachyura (Caranguejos e Siris) do Litoral Brasileiro. São Paulo, Ed. Plêiade, FAPESP, 604pp.




8.01.2013

Estruturas quimiossensoriais em Peracarida



Você já se perguntou como os machos de Peracarida encontram as fêmeas para reprodução? Ou como encontram comida, se não tem o cardápio da pizzaria? Você sabia que os machos de algumas espécies parecem ser capazes de determinar o status reprodutivo das fêmeas (próximas de sua muda reprodutiva)? Que o comportamento gregário em muitas espécies pode ser guiado por sinais químicos, que levam à agregação de fontes de alimentos comuns ou em abrigos comunitários? Em algumas espécies, as fêmeas conseguem reconhecer seus próprios juvenis, através de comunicação química! Ou seja, há evidências observacionais e experimentais de que interações inter- e intra-específicas em Peracarida são mediadas por estímulos químicos, embora o conhecimento sobre a estrutura química desses compostos ainda é muito limitada. Vamos nos deter, aqui, às estruturas responsáveis pela detecção de compostos químicos em Peracarida:

As mais importantes estruturas quimiossensoriais em Peracarida estão localizadas em seus dois pares de antenas. Os estetos, que se localizam próximo ao primeiro par de antenas (antênulas), são importantes estruturas quimiossensoriais e podem variar de acordo com o sexo e a espécie, indo de 3 a 1500 unidades. Frequentemente, os estetos se fundem em uma estrutura denominada calinóforo. Este, por sua vez, é uma estrutura que pode ocorrer em machos e fêmeas, embora em algumas espécies sejam restritas aos machos. Essa estrutura está envolvida na localização do alimento e também é utilizada na procura pelo parceiro. No geral, a antena, o tipo e número ou a presença de estruturas sensoriais mostram um forte dimorfismo sexual em muitas espécies de Peracarida, tanto aquáticos quanto terrestres.

Existem outras estruturas que também estão relacionadas à comunicação química em Peracarida. O calceoli, muito comum em machos e situados próximo ao segundo par de antenas, é a estrutura responsável pela detecção do feromônio liberado pelas fêmeas. Em isópodes terrestres, o segundo par de antenas termina em uma estrutura denominada cone apical sensorial. Esse cone contém muitas células (mais de 400), algumas das quais reagem às substâncias químicas específicas, como compostos voláteis e solúveis.

 Além das estrututas encontradas nas antenas, cerdas especiais com poros apicais são registradas nos gnatópodos e pereópodos de muitas espécies de Peracarida (Fig. 1). Essas cerdas são frequentemente concentradas na ponta ou na lateral dos pereópodos, entrando em contato direto com o substrato, sendo importantes na detecção do alimento.


Figura 1. (G) Cerdas quimiossensoriais tem um poro terminal através do qual as células sensoriais entram em contato com o ambiente externo. (H) As células sensoriais ficam expostas através do poro. Fonte: Duffy & Thiel, 2007.

Quando expostos a estímulos químicos, muitas espécies de Peracarida mostram vários comportamentos que podem facilitar a transferência de estímulo. Por exemplo, em anfípodes Lysianassidae movimentos antenais aumentam substancialmente uma vez que um estímulo químico (por exemplo, de uma fonte de alimento) é introduzido na água, provavelmente para melhorar a troca de água em torno dos quimiorreceptores presentes nas antenas. Ao caminhar, isópodes de deserto movimentam continuamente suas antenas tocando o chão. Durante estes movimentos, as células quimiosensoriais do cone apical sensorial fazem uma varredura da superfície do substrato para sinais químicos (que pode ser mediada por secreções líquidas): alguns isópodes terrestres foram observados mantendo a ponta do suas segundas antenas no substrato, liberando uma pequena gota de líquido provavelmente fornecendo uma ponte aquosa entre quimioreceptores antenais e o substrato!

Referências:

Duffy, J.E.; Thiel, M. 2007. The behaviol ecology of Crustaceans In Evolutionary Ecology of Social and Sexual Systems. Crustaceans as Model Organisms. Oxford University Press. 502p.
Thomas, B.; Thiel, M. 2011. Chemical communication in Peracarid Crustaceans  In Chemical Communication in Crustaceans. Springer. 584p.


6.13.2013

O que quer dizer Peracarida?

Alguém aí já se perguntou o porquê do nome Peracarida? Se sim, nós pesquisamos sobre e encontramos uma possível resposta para essa pergunta.

Pera (Gr.) significa"de pêra" ou "sacola"
Pera (Lat.) significa "de bolso"
Carida (Lat.) significa camarão.

Seguindo essas indicações, Peracarida significaria "Camarão de Bolso" ou "Camarão de Sacola". Entretanto, é conhecido que as fêmeas dos peracáridos desenvolvem marsúpios, que são as expansões dos oostegitos, responsáveis por formar uma bolsa incubadora de ovos e indivíduos em desenvolvimento.
Camarão esqueleto (Amphipoda: Caprellidae). Fotografia por: Linda Kuhnz, 2007

Isópodo (Ligia sp.). Fonte: http://www.asnailsodyssey.com/LEARNABOUT/ISOPOD/isopRepMod.php acessado em 13.05.13.

Sabendo disso, uma possível tradução para Peracarida seria camarões com marsúpio.

5.09.2013

"Anfípode beija-flor!"

Anfípodes, assim como outros crustáceos, podem ser encontrados em ambientes terrestre, dulcícola e marinho. No ambiente marinho, são associados aos mais diversos substratos. Já foram encontrados em algas, bancos do poliqueta Phragmatopoma sp., de moluscos como Perna perna, Brachidontes solisianus, Isognomon bicolor,  ascídia solitária Phallusia nigra, esponjas e medusas em diversas localidades do mundo. Esses pequenos crustáceos são importantes na produção secundária e, ultimamente, diversos estudos tem mostrado sua importância como bioindicador de poluição marinha.
Anfípode alimentando-se de pólen ou mucilagem de flor macho da grama marinha Thalassia testudinum, no período noturno. Fonte: van Tussenbroek et al., 2012.

Em estudo publicado em 2012, por pesquisadores do México, uma nova “função” foi atribuída a esses pequenos crustáceos. Dessa vez, não só aos anfípodes, mas também a outros crustáceos, pertencentes às classes Maxillopoda, Ostracoda e Malacostraca, que vivem junto à grama marinha Thalassia testudinum. Esses pequenos invertebrados, que, durante o dia ficando escondidos entre as folhas da grama marinha e detritos próximos, saem à noite para forragear. Entre os meses de maio e junho de 2009, 2011 e 2012, 252 espécimes de Crustacea, distribuídos em 37 famílias e 57 espécies, assim como algumas espécies de Polychaeta, foram observados à noite – e registrados por vídeo  – no momento em que forrageavam. Os pesquisadores observaram que os crustáceos visitavam com maior freqüência as flores da grama marinha Thalassia testudinum e que permaneciam na flor por mais tempo que os poliquetos. O pólen liberado à noite pela grama marinha, além de constituir importante recurso alimentar, principalmente para os crustáceos, ficava preso ao corpo dos animais, devido à matriz mucilaginosa liberada pela planta e, dessa forma, podia ser transportado para uma planta fêmea, auxiliando na polinização.

Se quiser dar uma espiadinha no vídeo, acesse: www.int-res.com/articles/suppl/m469p001_supp/

Referências:
Cantor, M., Siqueira, S. G. L., Cruvinel, G. T. and Leite, F. P. P. (2009) Occurrence of the amphipod Leucothoe spinicarpa            (Abildgaard, 1789) (Amphipoda) in the ascidian Phallusia nigra (Urochordata, Ascidiacea) in Southeastern Brazil. Nauplius, 17, 13-17.

Duarte, L. F. L. and Nalesso, R. C. (1996) The sponge Zygomycale parishii (Bowerbank) and its endobiotic fauna. Estuarine, Coastal and Shelf Science, 42, 139-151.

Flynn, M. N., Pereira, W. R. L. S., Pires, R. C. and Valério-Berardo, M. T. (2009) Population dynamics of Hyale nigra (Haswell, 1879) (Amphipoda, Hyalidae) associated to Bryocladia thyrsigera (J. Agardh) at Peruibe beach, Itanhaém (SP), Southeastern Brazil. Nauplius, 17, 1-8.

Jacobi, C. M. (1987) Spatial and temporal distribution of Amphipoda associated with mussel beds from the Bay of Santos (Brazil). Marine Ecology Progress Series, 35, 51-58.

van Tussenbroek, B. I., Monroy-Velazquez, L. V. and Solis-Weiss, V. (2012) Meso-fauna foraging on seagrass pollen may serve in marine zoophilous pollination. Mar. Ecol. Prog. Ser., 469, 1-6


4.21.2013

"O terceiro sexo"

A postagem de abril traz um tema muito curioso, a intersexualidade em anfípodos. Quem está no comando é a Mestranda em Biologia Animal Luiza Morais.


Alterações morfológicas sexuais em anfípodes decorrente de fatores externos: O fenômeno da Intersexualidade.

A intersexualidade é um fenômeno que decorre de alterações morfológicas sexuais em animais dióicos. No caso dos anfípodes, podem ocorrer tanto machos intersexuais como fêmeas intersexuais (Fig. 1),  sendo, esse fenômeno, mais frequente em machos. 


Figura 1. Micrografia eletrônica de fêmea intersexual de Gammarus marinus. Setas brancas indicam papilas genitais. Setas pretas indicam oostégitos. Fonte: Ford et al., 2008.

O animal não se torna estéril. O fenômeno da intersexualidade não é fatal, nem necessariamente leva à esterilidade definitiva, como o imposex em moluscos.

Há diversas hipóteses para a ocorrência da intersexualidade em anfípodes, como a determinação do sexo pelo ambiente, no qual o indivíduo responde a fatores ambientais, como o fotoperíodo ou a temperatura, além da poluição. Poluentes que causariam a intersexualidade incluem estrogénios naturais, tais como estradiol; sintéticos, tais como etinilestradiol - o ingrediente principal da pílula anticoncepcional -; e também alguns não-hormonais, tais como nonilfenol, um produto da degradação de surfactantes, que demonstram efeitos estrogênicos em vida aquática. A fonte principal para todos estes contaminantes se acredita ser a contaminação por esgoto, tanto industrial como doméstico. TBT (tributilestanho – encontrado em tintas antiincrustantes aplicadas em navios) em baixos níveis também poderia levar ao fenômeno da intersexualidade.

Diferenças morfológicas foram encontradas entre machos intersexuais e fêmeas intersexuais, além da presença do hormônio de determinação do sexo masculino – hormônio da glândula androgênica (AGH) em fêmeas. Os machos intersexuais apresentaram desenvolvimento testicular normal, mas também apresentaram a formação de oviduto.

Ovários das fêmeas intersexuais mostraram desenvolvimento normal, mas reduzido em tamanho de aproximadamente 20%, devido à presença de vasos deferentes. O número de vasos deferentes em fêmeas intersexuais é igual em número (um ou dois) de papilas genitais. O reduzido tamanho dos ovários observado em fêmeas intersexuais é a provável causa do tamanho reduzido de ninhadas registrados em fêmeas intersexuais de gamarídeos. A contagem espermática em gamarídeos intersexuais também é baixa se comparado com machos normais.

Intersexos podem apresentar um desvantagem evolutiva em seu sucesso reprodutivo devido à menor funcionalidade que apresentam em relação aos machos e fêmeas normais.


Referências:
BACHI, L.; FISCHER, A.; STRAND, J. 2010. Local anthropogenic contamination affects the fecundity and reproductive success of an Arctic amphipod. Marine Ecology Progress Series, 419: 121–128
BARBEAU, M.A.; GRECIAN, L.A. 2003. Ocurrence of intersexuality in the amphipod Corophium votulator (Pallas) in the Upper Bay of Fundy, Canada. Crustaceana, 76 (6): 665-679.
BUIKEMA, A.L.; CHESTER, A.L.Jr.; STEEVES, H.R.III. 1980. Intersexuality in Gammarus minus Say. Crustaceana. Supplement, 6: 112-117.
BULNHEIM, H.P. 1965. Helgoländer wiss. Meersunters, 12,  349–394
CHARNIAUX-COTTON, H. 1962. Androgenic Gland of Crustaceans. General and comparative endocrinology, Supplement 1, 241-247
CHARNOV, E. L. 1982. The theory of sex allocation. Princeton University Press, N.J.
DUARTE, L.F.L. & NALESSO, R.C. 1996. The sponge Zygomycale parishii (Bowerbank) and its endobiotic fauna. Estuarine, Coastal and Shelf Science, 42: 139-151.
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KELAHER, B.P. 2005. Does colonization contribute to spatial patterns of common invertebrates in coralline algal turf? Austral Ecology 30, 40–48
MCCURDY, G.; FORBES, M.R.; LOGAN, S.P.; KOPEC, M.T.; MAUTNER, S.I.; 2004. The functional significance of intersexes in the intertidal amphipod Corophium votulator. Journal of Crustacean Biology, 24 (2): 261-265.
NELSON, W.G.; DEMETRIADES, L. 1992. Peracarids associated with Sabellariid Worm Rock (Phragmatopoma lapidosa Kinberg) at Sebastian Inlet, Florida, U.S.A. Journal of Crustacean Biology, Vol. 12, No. 4, 647-654
PASTORINHO, M.R.; TELFER, T.C.; SOARES, A.M.V.M. 2009. Amphipod intersex, metals and latitude: A perspective. Marine Pollution Bulletin, 58: 812-817.
SEPÚLVEDA, R.D.; MORENO, R.A.; CARRASCO, F.D. 2003. Macroinvertebrate diversity associated to reefs of Phragmatopoma moerchi Kinberg, 1867 (Polychaeta: Sabellariidae) in the intertidal rocky shore at Ocholgüe, Chile. Gayana 67(1): 45-54, 2003




Luiza Morais é mestranda do Laboratório de Interações Ecológicas Marinhas (LICOMAR) da UNICAMP, já desenvolveu pesquisas com a intersexualidade em anfípodes e atualmente trabalha com diversidade de anfípodes associados à alga parda Sargassum em diferentes praias da Ilha de São Sebastião, nas porções continental e oceânica. http://lattes.cnpq.br/9280999191120246.